domingo, 26 de setembro de 2010

Bonecas de pano também amam...


Enquanto as últimas estrelas ensaiavam os passos finais para entrar em cena, a noite chegava para cumprir os desejos repetitivos de uma rotina exigente.
Apressadamente ela ia terminando de tecer, com um laço em tons de nude, a segunda parte de uma trança curta que, delicadamente, era sobreposta sobre os ombros.
Os detalhes do vestido rendado dançavam em harmonia com a delicadeza de uma face rosada.
Os olhos eram grandes no escuro e, deles, destacava uma ansiedade incontida.
A respiração do vento noturno entrava pelas frestas da janela e, sem pedir licença, acariciava de leve os traços de boneca.
Era chegada a hora.
Do alto da estante descia graciosa a garota de pano e, pelo centro da sala, desfilava encanto, com gestos maquiados de realidade.
Sem olhar para traz, partiu em busca daquele amor de contos.
Porque bonecas de pano também amam.

domingo, 19 de setembro de 2010

O medo de amar estava fora de moda...


Ela sempre soube, mas preferiu ignorar os antigos manuais.

Rasgou os argumentos de uma solidão conhecida e maquiou outros significados para ir além.
Relevou algumas descrenças e desmascarou as ilusões.
O plano parecia dar certo e torná-lo perigoso era empolgante.
Enquanto desafiava a loucura, dissimulando os desejos, outros diziam que ela havia perdido a noção do risco.
Aprendeu o descompasso de um ritmo desconhecido e atormentou o silêncio da tristeza com um riso incontido.
Jogou com algumas cartas camufladas e intimidou as razões avessas, seduzindo o vazio de uma noite monótona.
O que ela não havia notado, ainda, é que o medo de amar estava fora de moda.
A solidão já não voltara pra casa há dias e as letras de uma canção antiga tinham, agora, pronuncias de amor.
Era tarde demais para sair em busca de outras explicações.
Ela estava apaixonada.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Desprenda seu apreço daqui...


A poeira fina vai, pela contagem do tempo, sendo derrotada pela gravidade e desaba com leveza no assoalho escuro e largo.
Sem expressão meus olhos nus se jogam contra as caixas no canto de uma poltrona antiga. E na procura de argumentos sensatos, o descaso grita palavras indecifráveis enquanto a veracidade sufoca algumas lágrimas. Sem entender, o lamento arrisca suas forças pelas linhas da face.
Só queria esquecer as prorrogações, as frases bem elaboradas e o flerte perfeito. Só assim seria possível reorganizar os sentidos invertidos.
Observe indiscretamente estes últimos gestos e não pronuncie palavras em timbre que os outros possam ouvir.
A poeira já descansa como criança e tudo parece querer voltar para a versão habitual da rotina.
Aumente o volume para que a razão ganhe voz e desprenda seu apreço pela minha graça.
As caixas já estão feitas.
Leve-as daqui e, em silêncio, sinta o toque de um último beijo.