sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Letras sem rima...


Tarde demais para ajustes de última hora.
A noite já segue mapeada pelas luzes e o silêncio embala algumas danças de lá.
Os anseios já não são as únicas atrações daqui, agora, noções controvertidas entram sem pedir licença.
Coloco a pressa para dormir e rasgo a noite distraindo a saudade.
Lá fora, a lua é cheia e não é difícil perceber que eu tento não deixar sombras no asfalto úmido.
Eu finjo ter calma nas curvas e distração nas retas, enquanto o orvalho cristaliza e avança sem ponderar. Tentando decifrar as normas, adormecendo os medos e calando um amor antigo.
Convencida pelo cheiro de poeira que encapa as lembranças, desperto algumas letras sem rimas que, perdidas, tentam remodelar alguns anseios e pilhar outros poemas, enquanto a imaginação decifra um novo enredo e projeta um drama solitário.



quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Deixa eu decidir se é cedo ou tarde...

Apressei a solidão pelo olhar da manhã e um pouco mais.
Procurei abafar os auto-falantes, apagar o giz colorido da calçada e, propositalmente, perdi suas palavras.
Agora parece ser tarde.
Não de voz à curiosidade e tente enganar a teimosia.
Eu sei que você é capaz de notar os sinais, então jogue fora as chaves e abandone as razões desorientadas.
A ausência dos seus disfarces joviais torna a tarde mais segura e o silêncio do seu timbre exagerado adormece a banalidade.
Não tente roubar a cena outra vez, eu cansei da demasia manipulada e da vaidade mascarada.
Meu lugar é a poltrona ao lado da liberdade e minhas regras fazem parte da sensatez do acaso.
Não espero mais.
Vou e aviso-te que não volto cedo.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Grafitando a madrugada...

A luz do velho abajur, cor de bronze, mantém o olhar fraco e a claridade abraça o ambiente em tons amarelados.
Entre uma fresta indiscreta da cortina, alguns desenhos vão simulando toques pela parede.
As sombras, agora, jogam-se contra o gesso duro e decoram uma tinta já envelhecida.
Pela noite, as sombras seguem seus números.
Em riqueza de detalhes se deslizam com leveza, riscando o branco da parede e grafitando a madrugada com ar de graça.
Com gestos simples minha digitais mantêm a situação, dançando formas no ar. Enquanto na parede é revertida toda a cena, projetando cada gesto, cada palavra não pronunciada e cada timbre desconhecido.
Sob os ruídos calados de uma noite qualquer, as sombras traçam uma rotina infatigável e seguem entretendo a ausência de sono, projetando contos e editando histórias.

sábado, 7 de agosto de 2010

Só mais alguns outonos...


As folhas de outono seguem a rotina e vão, lentamente, deixando o pico das árvores.

Tocam os meus ombros com um gesto simples e roçam o chão com uma performance clássica.
O som de folhas secas arranhando o cimento grosseiro coincide com os ruídos de uma trilha sonora já adormecida.
Enquanto alguns galhos são desnudados pelo vento, eu procuro desculpas para estar de volta aqui.
Eu quis voltar em outra estação, mas a coragem brigou e fugiu de casa, sozinha eu não podia estar aqui.
Não é tão complicado assim, mas senti falta da cor destas folhas secas e do sabor de uma lembrança boa.
Então voltei, meio pela contra mão.
Aqui, as trilhas de outono fragilizam o olhar seco e firme, na tentativa de reinventar outonos passados.
Talvez eu, ainda, não tenha desistido de desenhar o final da história e, com o olhar encharcado, nem é difícil perceber.
Ou talvez eu apenas necessite de outras estações.
São só mais alguns outonos e eu esqueço tudo.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Uma moda da época...

Um corte duplo de cortina dança com ar de graça pelo centro da parede descascada, refletindo um toque cor de rosa fosco pela superfície transparente de uma vidraça já enferrujada.
Do lado de cá, com formatos antigos e expostos na altura de uma estante em tons de carvalho, algumas fitas cassetes são enfeitadas pela poeira.
O silêncio daqui corta, com acidez, as cordas vocais e a única expressão que resta, são algumas lágrimas reservadas, que se jogam do olhos para fora, estimuladas pela nostalgia.
Com o olhar encharcado, tento educar minha curiosidade, que abusa de algumas restrições.
Sem sucesso, acabo cedendo e descarrego algumas fitas em uma TV antiga no canto da sala.
Ali, encontro vídeos delineados em cores boas de provar.
Alguns sorrisos congelados, com sabor de saudade, definem um colorido neon.
E a fita de cetim cintilante, amarrada no alto do cabelo, desenha os traços de uma moda da época.
Uma época em que a saudade não era moda.